Os países europeus não estavam preparados. As fraquezas e o que devemos fazer para um desconfinamento bem sucedido – RTP

Devemos estar preparados para o pior cenário, alertam os autores deste estudo. E para isso foram analisar o que alguns países como Japão, Nova Zelância, Singapura, Coreia do Sul, Hong Kong, e países europeus – Alemanha, Noruega, Espanha e Reino Unido – fizeram para que, com os erros do passado, seja possível criar melhores formas de atuar no futuro.

Para começar, defendem a existência de “um plano claro e transparente que descreva quais os factores que estão a ser considerados” é essencial. “Idealmente, estes planos devem explicitar de forma claro os níveis e as fases que existem para aligeirar as restrições, o critério para seguir para a fase seguinte e quais as medidas de controlo que há em cada um desses níveis”, lê-se no trabalho.

Em segundo lugar, os países não deve aligeirar as restrições até que tenham um sistema robusto para monitorizar a situação dos casos de infeção.

Terceiro, é preciso ter consciência de que medidas continuadas para reduzir a transmissão vão ser necessárias durante algum tempo. Por exemplo, o distanciamento social, o uso de máscaras, são medidas que podem perdurar no tempo. 

Os responsáveis por este estudo consideram ainda que os governos devem envolver todos os membros da sociedade, em particular os mais vulneráveis, na resposta à pandemia. Os cidadãos devem estar envolvidos na criação de medidas de proteção num contexto local. 

Em quarto lugar, todos os países devem ter um sistema efetivo para encontrar, testar, isolar e apoiar pessoas que possam estar infetadas com o vírus. Todos os dados confirmam que a identificação de casos leves e até assintomáticos reduz substancialmente a contaminação e, em última análise, a mortalidade.

Escrevem ainda que este objetivo de testar e isolar deve ser suportado por um investimento continuado na capacidade da saúde pública e do sistema nacional de saúde de cada um dos países.

Neste estudo publicado no The Lancet, percebe-se claramente que a situação atual pela qual o mundo passa vai durar ainda algum tempo. “Há cada vez mais a realização de que retirar as restrições Covid-19 não significa que vamos regressar à situação pré-pandemia, mas antes regressar de forma gradual para um novo normal”, sempre prontos para voltar a impor medidas restrititvas.

Quando é que devem ser levantas as medidas de confinamento tem sido um desafio, com a OMS a alertar recentemente que o levantamento prematuro dessas medidas pode resultar num aumento de infeções e causar um problema ainda maior de longo-prazo.

A verdade é que nenhum país aguenta estar paralizado tanto tempo, pelo que os autores deste trabalho sugerem que, na altura do desconfinamento, tenham em conta estes cinco critérios: conhecimento do estado da infeção, envolvimento da comunidade, capacidade da Saúde Pública, capacidade do sistema de saúde e medidas de controlo nas fronteiras.

1. Conhecimento do estado da infeção

Quase que “intuitivo”, dizem, mas nenhum país deve reabrir até que tenha um robusto sistema de vigilância sobre os novos casos de infeção. Infelizmente, escrevem no The Lancet, tal não se verifiou em muitos países.

E dão um exemplo. Enquanto que Hong Kong conseguiu implementar um sistema que estima em tempo real o R (taxa de infeção), a Espanha e o Reino Unido tiveram muitas dificuldades em colocar em funcionamento um sistema para acompanhar esse valor.

2. Envolvimento da comunidade

Para que as sociedades possam reabir de forma segura, os autores deste estudo aconselham que as comunidades devem estar totalmente envolvidas e com meios para se protegerem do vírus e dos efeitos da crise por ele provocada. As autoridades devem por isso assegurar que a população compreende totalmente a realidade da situação. Os conselhos devem ser consistentes e credíveis, acresentam.

Neste ponto, os autores do estudo dão exemplos de mensagens confusas que não ajudam. Primeiro em relação ao distanciamento social. Por vezes fala-se em 2 metros, depois pelo menos um metro. A mensagem sobre o uso de máscaras também não terá sido a melhor, criando por vezes confusão entre população.

Salvo raras exceções, escrevem, em todo o mundo tem sido muito complidado aos líderes políticos manterem a confiança pública sobre as mudanças que estão em curso. Curiosamente, acrescentam, os países com mulheres na liderança têm feito melhor trabalho em assegurar a confiança da população em relação às medidas que aplicam.

Um outro ponto fulcral neste envolvimento da comunidade está na proteção das populações mais vulneráveis. O apoio económico é fundamental, tal como a manutenção dos postos de trabalho e o alívio de encargos financeiros pessoais ou familiares.

3. Capacidade da saúde pública

Como já referido, uma das bases para uma saída do confinamento com sucesso passa pelo sistema de monitorização. Encontrar casos, testes e isolar pessoas que estejam infetadas. E de seguida ter capacidade para encontrar os contacto diretos para que sejam isolados. 

Na verdade, dizem, a rapidez da pandemia demonstra que os países estavam muito mal preparados para esta realidade. 

4. Capacidade do Sistema Nacional de Saúde

Um SNS musculado é crucial para dar resposta a um possível aumento de infeções. Passa por ter hospitais suficientes, mas também equipamento médico e profissionais da área da saúde. Sem isto o desconfinamento pode falhar.

5. Controlo das fronteiras

Com a abertura das fronteiras, aumenta o número de pessoas que se cruzam entre países. O estudo aconselha que as viagens sejam controladas para reduzir o risco de infeções.

Em notas finais, este trabalho agora publicado no The Lancet concluiu que os países asiáticos estavam genericamente mais preprarados para esta pandemia porque, devido ao SARS em 2003 e à MERS em 2016, investiram em criar sistemas nacionais de saúde e sistemas de saúde pública mais robustos. 

Também se tornou mais fácil para os asiáticos cumprirem com o uso de máscara porque já estavam habituadas a essa realidade.

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