O que é o síndrome de Kawasaki, a inflamação ligada à COVID-19 e que está a infetar crianças em todo o mundo – Jornal Económico

Foi no fim de abril que no Reino Unido surgiu o primeiro alerta sobre as doenças de Kawasaki e Choque Tóxico: “Houve um pequeno número de relatos de uma condição relacionada com a COVID-19 a surgir em crianças. O nosso conselho permanece: é improvável que as crianças fiquem gravemente doentes com a COVID-19, mas se os pais estiverem preocupados, devem procurar ajuda de um profissional de saúde”, alertou Russell Viner, presidente do Colégio Real de Pediatria e Saúde Infantil (RCPCH), no Twitter a 27 de abril.

A partir daqui a escalada de casos tem sido galopante: Nova Iorque tem já 100 crianças diagnosticadas com uma inflamação dos vasos sanguíneos que se acredita estar relacionada com a COVID-19, de acordo com o “New York Times“, e além de casos em Itália, Espanha e Suíça, em França há cerca de 15 crianças, de todas as idades, com sintomas da doença de Kawasaki de acordo com o ministro da Saúde de França, Olivier Véran.

Este foi também o primeiro país com uma vítima mortal com sintomas semelhantes aos da doença de Kawasaki. A criança de 9 anos morreu esta sexta-feira, 15 de maio, devido a “danos neurológicos ligados a uma paragem cardíaca”, de acordo com Fabrice Michel, chefe do serviço de reanimação pediátrica de La Timone em Marselha, França. O mesmo revelou ainda que a criança tinha “uma serologia que mostrava que tinha estado em contacto” com o vírus, mas não teve os sintomas da COVID-19.

Já em Portugal, até ao momento, foi revelado em abril um caso com sintomas semelhantes ao síndrome de Kawasaki, de acordo com a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Já esta sexta-feira, 15, a mesma atualizou na conferência de imprensa que “felizmente foi uma criança que evoluiu bem”, acrescentando ainda: “Tanto quanto sabemos já teve alta”. Graça Freitas destacou ainda que os serviços de pediatria estão atentos a novos casos e a atuar tanto no que diz respeito ao diagnóstico, como ao tratamento.

Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) está a investigar as possíveis ligações da COVID-19 às doenças de Kawasaki e Choque Tóxico, o alerta está dado e os pais estão atentos a todos os sintomas.

Antes de sabermos quais são os sinais, que não passam despercebidos no corpo das crianças, é importante saber o que são estes nomes ainda estranhos que, no caso da síndrome de Kawasaki, atinge pelo menos três mil crianças todos os anos.

O que é a doença de Kawasaki e Choque Tóxico?

“A doença de Kawasaki é uma síndrome inflamatória e é um conjunto de sinais e sintomas. O diagnostico é clínico e não há um marcador ou teste específico para definir essa doença”, explica à MAGG o pediatra Sérgio Neves, coordenador da unidade pediátrica da Clínica de Santo António.

Os sintomas da doença que afeta mais frequentemente crianças com menos de 5 anos são: febre alta, a mais de 29ºC durante cinco dias consecutivos, aumento do tecido adiposo, língua e garganta vermelha, manchas no corpo e edemas (inchaço) nas mãos e pernas, embora “nem sempre existam situações de cumprimentos de todos estes critérios de diagnostico”, alerta o pediatra.

Sendo esta uma doença inflamatória, com variadas causas, o organismo desencadeia estes sintomas como resposta a um agressor, levando então à ação inflamatória exagerada. De acordo com o especialista, uma das situações mais graves é a inflamação dos vasos sanguíneos, nomeadamente a dilatação das coronárias, que pode ter consequências a longo prazo.

Quanto ao Choque Tóxico, este não difere muito da síndrome de Kawasaki: “É também no fundo uma reação inflamatória sistémica geralmente mais comum com algumas bactérias que existem na pele, mas que levam também depois à falência dos órgãos, como o hepático”, explica o pediatra. Neste caso, os sintomas não são semelhantes, mas a reação inflamatória é igualmente exacerbada.

Qual a relação entre a COVID-19 e o síndrome de Kawasaki?

Uma vez que a COVID-19 é um vírus e a doença de Kawasaki e Choque Tóxico são doenças inflamatórias que reagem a um agressor externo, o novo coronavírus, o SARS-CoV-2, pode ser a causa dos sintomas que estão a aparecer em crianças de todo o mundo.

“Parece que o vírus também pode participar como agente destas doenças. No fundo o que se tem percebido, e aquilo a que a comunidade cientifica tem estado alerta, é que esta pode ser uma apresentação da COVID-19”, refere o pediatra Sérgio Neves, acrescentando que é sempre preciso ter em conta o contexto. Ou seja, perceber se a criança teve contacto com alguém que teve a doença, sintomas como febre, falta de ar ou tosse, que em quadros mais complexos acaba por permitir definir a resposta necessária no que diz respeito ao internamento e isolamento, mais adequados.

Podemos então dizer que os sintomas destes síndromes são apenas indicadores para a COVID-19 e não se trata da doença Kawasaki e Choque Tóxico em si? “Um dos principais sintomas da COVID-19 são os problemas respiratórios, que podem levar a precisar de suporte de ventilação. O que acontece sobretudo nas crianças é que eles têm uma variação clínica maior em que pode não aparecer necessariamente a tosse e falta de ar, mas podem aparecer esses sintomas, com as manchas no corpo, e às vezes os parâmetros respiratórios aumentados”, explica o pediatra.

No fundo, o que acontece é que podem surgir os sintomas destes doenças que, sendo inflamatórias podem “puxar” alguns vírus mais frequentes, como a COVID-19.

“Não está a haver um surto de Kawasaki inusitado, o que se está a perceber é que há uma frequência de infeção na COVID-19 com este síndrome e como estamos numa pandemia, é normal que apareçam mais casos e mais formas de apresentação do próprio vírus”, refere.

As pessoas devem então estar alerta para os sintomas das crianças ou reações iniciais como mau estar, o facto de não brincarem, não comerem, haver uma redução de urina e a então febre alta. Essa avaliação é importante para prevenir uma evolução da situação.

“O síndrome de Choque Tóxico pode evoluir muito mais depressa do que o Kawasaki. Tanto que pode surgir em 24 a 48 horas. Já o Kawasaki normalmente custa até chegar ao diagnóstico. As crianças são internadas com dois ou três dias de febre e depois ao longo da evolução da doença começam a surgir os sintomas e depois faz-se o diagnostico um bocadinho retrospetivo”, indica o pediatra Sérgio Neves.

Diagnóstico

Para chegar ao diagnóstico das doenças de Kawasaki ou Choque Tóxico é preciso avaliar parâmetros analíticos e clínicos. Apesar de a síndrome de Kawasaki ser fundamentalmente diagnosticada através da sintomatologia, o pediatra Sérgio Neves refere que “existem alterações nas análises sugestivas de inflação, com quadros habituais de uma inflamação, como as plaquetas aumentadas”.

As análises são então uma das hipóteses que podem apontar para a existência de uma inflamação e pode ainda ser feito um ecocardiografia, mas não no sentido de definir ou exclui a doença. De acordo com o pediatra, este apenas avalia as complicações do Kawasaki, nomeadamente aneurismas de artéria coronária.

Quanto ao diagnóstico que diferencia os sintomas das doenças de Kawasaki ou Choque Tóxico, do vírus da COVID-19, o que alguns investigadores britânicos perceberam é que apesar de as crianças fazerem o teste normal para o novo coronavírus, estes dão negativo, apesar dos sintomas apontarem para a infeção.

Em alternativa, os cientistas desenvolveram anticorpos para o vírus SARS-CoV-2 que podem então diagnosticar a infeção com a síndrome de Kawasaki, de acordo com o “Daily Mail“. Os médicos acreditam que os testes de anticorpos são então a única maneira de identificar com precisão a presença do vírus em crianças que sofrem com a condição hiperinflamatória que pode ter graves consequências, como a morte em casos em que a situação se complique.

Tratamento

Uma vez que a febre é um dos sintomas mais comuns, o tratamento deve focar-se no controlo da temperatura, já esta aumenta o consumo de oxigénio, levando à desidratação. Pode ainda ser necessário recorrer a terapêuticas com hemoglobina de forma a controlar a propagação da inflamação.

“A duração varia, dependendo dos protocolos. A hemoglobina pode demorar três dias consecutivos, podem ser precisas outras terapêuticas. Não se pode dizer de uma forma generalizada”, conclui o pediatra Sérgio Neves.

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