Guias turísticos viram-se ficar a zeros de um dia para o outro – PÚBLICO

“Chegou o tempo de parar.” Esta é a primeira frase que ouvimos no vídeo através do qual o Turismo de Portugal tenta enviar uma “mensagem de esperança ajustada ao momento de incerteza em que vivemos”. Isto depois de, no ecrã, em inglês, conseguirmos ler: “As imagens que está prestes a ver foram capturadas numa altura em que ainda podíamos passar o tempo na rua”. O pequeno filme – que, entre paisagens que “reflectem o melhor de Portugal”, surge “para que nos lembremos do que nos aguarda se todos soubermos esperar” – tenta frisar que o distanciamento social ainda é a melhor arma na guerra que é o combate à propagação do surto de covid-19. Para as empresas turísticas, confrontadas com medidas de contingência que retiram os visitantes das ruas, isto significa que chegou a hora de pensar em alternativas capazes de manter o negócio à superfície.

“Estamos congelados desde o dia 14. Completamente a zeros. E é assim que vamos continuar durante algum tempo. É um período negro.” Quem o diz é Ana Sousa, da Porto Walkers, empresa responsável pela organização de passeios que incluem, por exemplo, caminhadas gratuitas pelo centro histórico dessa cidade. “Ainda vemos alguns turistas nas ruas, mas decidimos suspender a actividade para salvaguardar a segurança da equipa”, sublinha a gestora da companhia, que está “naturalmente preocupada” com as possíveis mudanças de paradigma que o futuro pode trazer, mas, ao mesmo tempo, feliz por saber que as pessoas com quem trabalha não apresentam qualquer problema de saúde. “Para já, é nelas que mais penso. Este mês, ainda conseguimos pagar os ordenados todos. Em Abril, espero também não ter grandes problemas A partir daí, não sei o que vai acontecer”, aponta. “Ninguém sabe.”

“Desde o dia em que dei início a este projecto, 6 de Fevereiro de 2016, até ao dia em que decidimos suspender provisoriamente as caminhadas, 11 de Março de 2020, nunca deixámos de mostrar disponibilidade para a realização dos passeios. Fins-de-semana, feriados, aniversários, não interessa”, explica João Gomes, fundador das​ Minho Free Walking Tours. “Em circunstâncias normais”, junto ao Arco da Porta Nova, na Sé de Braga, ou à beira da estátua de D. Afonso Henriques, em Guimarães, não haveria fim de manhã ou início de tarde em que não se visse pelo menos um daqueles guarda-chuvas verdes. Não era sinal de mau tempo: eram os “entusiastas da região onde residem”, que levavam os turistas em visitas onde davam a conhecer “as lendas e tradições” daqueles territórios. Os percursos, conforme o nome sugere, eram gratuitos – embora, no fim, o guia agradecesse “uma gratificação pelo seu trabalho”.

Nos últimos dias de actividade, esse trabalho fez-se com limitações a que até então aqueles colaboradores ainda não tinham precisado de responder. “Havia sempre algum receio quando falávamos com os turistas. Tínhamos o cuidado de manter uma determinada distância. É difícil fazermos as coisas das formas a que estamos habituados quando toda a gente pede para evitarmos aglomerados”, lamenta João Gomes, que, paralelamente, é também professor de História. Os “cancelamentos em catadupa” de visitas que já estavam marcadas veio afectar “de forma bastante radical” as operações. Cenário que coloca um travão considerável sobre as ambições do colectivo. “Estávamos à espera de um grande movimento na altura da Páscoa, que por norma é o ponto alto do turismo em Braga. Os nossos planos foram tingidos.”

Moliceiros encostados ao cais

Naquela que é a principal actividade turística da cidade de Aveiro – os passeios de barco moliceiro –, a preocupação tem sido sentida em dose reforçada, uma vez que os operadores têm de pagar centenas de milhares de euros pelas concessões. Em causa poderão estar valores de 500 mil ou até mesmo 800 mil euros, a pagar em cinco anos (20% por cada ano). “Ainda em Outubro pagámos a primeira tranche e agora levámos esta cacetada”, lamenta Virgílio Porto, da Aveiro Emotions, temendo que “o ano de 2020 esteja perdido”.

Este empresário, que tem também um comboio turístico a operar, diz que não lhe restará alternativa: recorrer ao lay-off. “O salário de Março está assegurado, mas, sem uma perspectiva de quando isto vai terminar, não temos outra solução”, testemunha. Com os moliceiros atracados ao cais e o comboio parado, Virgílio Porto apenas mantém em funcionamento a loja online de produtos regionais (ovos moles, sal, etc.), mas nem aí tem feito grande negócio. “As pessoas não estão muito habituadas a comprar pela Internet, além de que deve andar tudo preocupado com os rendimentos futuros”, desabafa.

Vivem-se dias de apreensão, com a agravante de não se obterem explicações ou respostas por parte das entidades competentes. “O Turismo de Portugal não atende o telefone há 12 dias nem responde aos e-mails. Da parte da Segurança Social, também estou há oito dias sem resposta”, atira Virgílio Porto. Isto quando, critica, “o que se vê é sempre um tal de anunciar apoios para as empresas na televisão”.

“Choque violento”

Kleiber Bassi, criador da Hi Lisbon Walking Tours, confessa que é um privilégio não ter preocupações que neste momento atormentam muitas empresas e organizações turísticas. Por um lado, os guias com quem organiza roteiros pela capital do país trabalham enquanto freelancers, deixando, em teoria, a questão dos salários resolvida (em teoria porque, assinala o brasileiro de 38 anos, “não os quero abandonar nesta fase em que temos de ser especialmente solidários uns com os outros”). Para além disso, a esposa, farmacêutica, ainda está a trabalhar, o que, não sendo suficiente para fugir aos “sacrifícios que vamos precisar de fazer”, ajuda a amenizar o quadro desfavorável.

Ainda assim, não há como negar o “choque violento” que se viveu “de um dia para o outro”. “Uma coisa é uma empresa começar a acumular dívidas e eventualmente acabar na falência. Outra coisa é você ir ao zero assim, desse jeito”, adianta Kleiber, que resume o dilema do sector sem rodeios. “O turismo não existe se você não tem como viajar. Acha que ele consegue sobreviver à porta fechada?” Para a Hi Lisbon, as visitas virtuais, que são já pensadas pela Minho Free Walking Tours como uma possibilidade durante a fase de mitigação, são vistas com cepticismo. O mesmo considera a Porto Walkers, que prefere “olhar para um dia de cada vez” em vez de pensar demasiado no futuro. Até porque “as perspectivas a longo prazo não são as melhores”.

“Acho que, colectivamente, nos habituámos muito mal nos últimos anos. Fomo-nos acomodando a este nível vibrante de turismo. Agora vamos ter toda uma montanha a escalar”, conclui Ana Sousa, que tem dificuldade em imaginar como, a curto prazo, o sector vai conseguir dar a volta. “Com o golpe que a economia europeia está a levar, as pessoas vão mesmo conseguir viajar depois disto tudo?” João Gomes, das Walking Tours, garante que este projecto “não vai ser colocado na gaveta”, mas também avança que o caminho que terá de percorrer com os guias que dele fazem parte vai ser o mais difícil que alguma vez tiveram de trilhar. “Não sei quanto tempo vai ser preciso até as coisas voltarem ao que eram.” Com Maria José Santana

Texto de Ana Fernandes

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