Entrevista a Manuel Monteiro. Ex-líder do CDS voltou e quer devolver “decência” à política: “Perdeu-se a vergonha” – Observador

Sempre que diz a sigla CDS, acrescenta-lhe “Partido Popular”. Na semana em que recebeu o novo cartão de militante do CDS no Largo do Caldas das mãos do líder do CDS-PP, Manuel Monteiro veio  ao programa Vichyssoise, da Rádio Observador, fazer vários elogios a Francisco Rodrigues dos Santos, de quem não é “conviva permanente”, mas que diz ser alguém “independente” e resistente a servir “vários senhores”. Aconselha-o a “saber ouvir” e a não cometer os mesmos erros que ele cometeu quando era novo e líder do CDS-PP.

Manuel Monteiro garante que não será candidato à Presidência da República — “Não sou hipótese. Isso está completamente fora de questão” — e admite que o CDS possa estar condenado a apoiar Marcelo Rebelo de Sousa, sendo que nunca o poderá fazer sem crítica.

Manuel Monteiro rejeita candidatura presidencial. “Não sou hipótese”

Nesta que é a primeira entrevista desde a refiliação, Manuel Monteiro diz que “se perdeu a vergonha” e a “decência” na política e que a direita liberal de hoje não é a direita em que se reconhece. Apesar disso, acredita que “nunca como agora houve tanto espaço para a afirmação do CDS-PP”, mesmo com o surgimento de partidos como o Chega no cenário político. “Antes do debate ideológico esquerda-direita, liberal-conservador, tem de existir um princípio fundamental que é o princípio da decência e do bom senso”, defende ainda. A sua “direita”, avisa, não inclui a defesa de casamento de pessoas do mesmo sexo, nem a eutanásia, nem a interrupção voluntária da gravidez.

[Ouça aqui o podcast Vichyssoise, com Manuel Monteiro:]

O regresso de Manuel Monteiro

Está entusiasmado com este regresso à vida política? Tem planos para uma intervenção mais regular a partir de agora?
Estou muito sereno. Eu tinha solicitado esta readmissão em setembro, e portanto fiquei muito contente. Mas não tenho nenhum plano de intervenção a não ser aqueleque decorra da vontade do presidente do CDS e da própria direção do CDS. Não mais do que isso.

Porque é que era importante a refiliação? 
Estive ligado ao CDS desde os 14 anos de idade. Fiz um percurso de intervenção política muito ativa a partir do movimento associativo estudantil, primeiro no liceu Passos Manuel, depois na Juventude Centrista, a que presidi, e depois obviamente no próprio CDS-Partido Popular, expressão que de resto foi acrescentada quando eu fui presidente do CDS. Depois, a determinada altura, por razões várias, sai do CDS porque entendia que a linha que era seguida pelo Partido Popular não estava a ser seguida pelo CDS, e porque sentia que não tinha espaço nem era bem-vindo na participação política mais ativa. Isso tinha-me sido de algum modo transmitido num congresso a que concorri e era presidente o dr. Paulo Portas. Mas o CDS é um partido necessário e essencial à afirmação política, e este regresso a casa é no fundo um dizer ‘presente’, mostrar que estou disponível dentro das minhas possibilidades e das minhas vontades. Mais do que isso não.

Os últimos resultados eleitorais do CDS, nas europeias e legislativas, não foram muito animadores. Porque é que acha que isso aconteceu? Porque o CDS não estava no caminho do Partido Popular? O que é que o CDS precisa de fazer para reconquistar eleitores?
A doutora Assunção Cristas creio que foi penalizada pelo facto de existir uma percentagem significa de eleitores do CDS que, perante a iminência de uma vitória do PS com maioria absoluta, preferiram votar PSD.

O problema foi o voto útil, então?
O velho problema de que o CDS sempre padeceu, a partir da Aliança Democrática de Sá Carneiro. Há um pragmatismo muito grande no eleitorado da direita, apesar de haver sempre uma direita mais ideológica agarrada aos princípios e valores, com a qual eu me identifico, e depois há uma direita muito fria, muito pragmática, muito objetiva, que não está prisioneira de um voto. A ideia de um eleitorado fixo é um erro, porque hoje há um eleitorado muito oscilante que tanto pode ir do BE ao CDS, ou outros partidos. As circunstâncias mudaram por completo. Mas a política é isso mesmo. A doutora Assunção Cristas tinha beneficiado, nas autárquicas, de um mau processo de candidatura do PSD à câmara municipal de Lisboa, e depois aconteceu o contrário. É a vida, como dizia o engenheiro António Guterres.

E antevê uma mudança de rumo do CDS com a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos, vai caminhar para a direita dos princípios e valores? Que balanço faz do mandato?
Ainda é muito cedo para fazermos um balanço, até atendendo às circunstâncias em que todos estamos envolvidos desde março. E a dinâmica que eu sei que ele quer imprimir ao partido numa lógica de contacto de rua, de auscultação das pessoas, isso ficou completamente tolhido. Não deixa de ser significativo que ele tenha sido o primeiro líder partidário, não governamental, a ter tido já esta semana uma ação de rua. Ainda é cedo.

Mas conhece as ideias dele.
Lendo a moção de estratégia e tendo presente algumas (não muitas) conversas que tenho mantido com ele, penso que ele é um líder jovem, arejado, e sem medo de dizer que é de direita e que é conservador. Num certo sentido, estamos a regressar a uma época do PREC, que vivi quando era muito jovem, em que ser do contra ou ter um pensamento distinto da lógica dominante na altura era considerado fascista, e hoje é considerado anti-patriótico. Por exemplo, quem não é a favor da conversa da igualdade de género é considerado anti-patriótico. Isso é profundamente negativo, e há cada vez mais pessoas desiludidas com a atividade política por essa razão. Tenho a esperança, e a expectativa, que o doutor Francisco Rodrigues dos Santos rompa com esse colete de forças e seja uma voz autêntica dentro dos parâmetros da democracia e do humanismo cristão para afirmar um pensamento popular de direita, não populista, e claramente conservador.

Sendo que já foi líder do partido, e até em circunstâncias similares, Francisco Rodrigues dos Santos já lhe pediu alguma vez algum conselho? Costumam falar?
O principal conselho que lhe posso dar é que não cometa os erros que eu cometi, isso parece-me fundamental.

Que erros?
Foram vários. Eu tinha uma juventude muito aguerrida, era muito combativo, nem sempre ouvia quando devia ouvir, e ouvir em política é muito importante. Sei que hoje vivemos num frenesim em que todas as pessoas falam de tudo, mas, como eu costumo dizer, falam de tudo em 5 minutos, não têm conversa para 6. Não há densidade, não há profundidade. Porque vivemos uma época de muita informação mas de pouca formação. Isso leva a que a vida política esteja frenética, mas no mau sentido. Penso que há aqui uma fragilidade muito grande no discurso político e a densidade de combate político deixou de existir: vivemos cada vez mais para os soundbites, estamos preocupados cada vez mais com o título do jornal, esquecendo que o título do jornal as 10h da manhã já não é o mesmo às 10h15. As lideranças políticas deviam ter essa perspetiva em atenção, e deviam ouvir e ouvir quem mais sabe. O que não significa seguir quem ouviu.

Francisco Rodrigues dos Santos sabe ouvir?
Penso que sim. Ao contrário do que se possa pensar, eu não estou muitas vezes com o doutor Francisco Rodrigues dos Santos. Estive algumas vezes, e não me posso esquecer que a primeira pessoa a convidar-me para me reaproximar do CDS foi ele, quando me convidou, na qualidade de presidente da Juventude Centrista, para participar num aniversário da Juventude Centrista. Não me esqueço disso, mas não somos convivas permanentes.

Quando falava da importância de saber ouvir, também acha que é importante saber escolher quem é que se deve ouvir?
Claro. Mas as pessoas são uma caixa de surpresa permanente. Podemos confiar muito numa pessoa e ao longo da vida ficar desiludido com essas pessoas, ou essas pessoas ficarem desiludidas connosco. Não podemos ter a perceção de que quando há uma zanga, quando há um mau-entendimento, que a culpa é só dos outros e não é nossa.

Acha que esse também foi um erro que cometeu?
Quem age, quem faz coisas, tem de estar sempre predisposto a perceber que pode errar. Portanto, quem não quer cometer erros não faz rigorosamente nada. Havia um líder partidário e político, Cavaco Silva, que teve a grande coragem de dizer que nunca se engana e raramente tem dúvidas. Nem todos temos essa iluminação, eu não sou assim, e penso que a esmagadora maioria do ser humano sabe que quem age, erra. Quem pensa, umas vezes acerta e outras não. Grave é quando se erra e não se reconhece o erro, e grave é quando esse erro é lesivo dos interesses dos outros e é cometido à custa do erário público ou prejudicando a esmagadora maioria das pessoas, isso é que é grave.

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